11 junho, 2008

Sótão escuro, húmido e abafado. Temeroso, talvez. Lá só de lanterna, e sempre com aquele arrepio latente, mesmo prestes a acontecer "caso salte um rato", nunca se sabe. Nesse sótão guardava Maria as saias da sua infância.. Não saias de vestir ou daquelas de levar às inúmeras festas de anos ou casamentos ou baptizados ou seja o que for. Eram saias de brincar.

Na verdade estas "saias de brincar" nada mais são que roupas antigas, simples vestimentas de gentes que concerteza que já cá não estão para contar a sua história. E era isso mesmo que deixava Maria fascinada: o tempo passado por aqueles linhos, fazendas e algodões. A diferença para o resto da casa (biblioteca centenária, um quarto de jantar a cheirar a mofo, penas de escrever numa escrivaninha de mogno enegrecida pelo tempo, etc.) residia no facto de as poder vestir e encarnar com um saudosismo que tem não sabe vindo de onde e uma magia que só ela podia sentir.


Um dia chega Maria ao seu paraíso e sobe correndo as escadas em caracol ladeadas por fotografias a preto e branco de toda a família que dão ao segundo andar. E ali está: a porta do sótão. De lanterna na mão sobe um a um os degraus rangentes das pequenas de escadas e ao atingir o topo jura ouvir passos de ratinhos a fugir. A arca está aberta e as saias não estão lá. Não sabe o que lhes aconteceu, sabe apenas que não voltará a "brincar" como dantes.